Gaveta de Memórias, pequenos apegos

Publicado no dia 10 de dezembro de 2014


Quando guardamos as coisas e objetos, na verdade temos uma intenção por trás. Mesmo que não tenhamos muita consciência do por quê estamos guardando, naquele instante que decidimos manter tínhamos a impressão que era importante e que deveria ser guardado.

Todo mundo tem em casa pelo menos uma gaveta onde guarda miudezas. Aquelas pequenas coisas que sabemos (ou pelo menos achamos) que é importante e não sabemos muito bem onde guardar. Não é uma gaveta com objetivo muito especifico. E o que encontramos nesta gaveta? Geralmente pequenos objetos, pecinhas que faziam parte de outras coisas, lembrancinhas, entre outras coisas. É sobre esta gaveta que quero falar hoje.

Começarei pelas lembrancinhas. As lembrancinhas são uma briga antiga minha. Na verdade fui pesquisar um pouco de onde vem esta história de lembrancinhas de festas e casamentos e descobri que surgiu na Idade Média, quando a realeza queria agradecer a presença de convidados e enfim entregava uma pequena lembrança, um pequeno presente.

Bem... Nós estamos muito longe da realeza e as lembrancinhas que acabaram sendo obrigatórias, muitas vezes não têm um valor estético. É uma coisinha, uma coisinha bonitinha, muitas vezes bastante comum. Ao recebermos, ficamos felizes e, de fato, lembra-nos o casamento, mas no fundo a peça em si não tem muito valor... Por que não podemos ficar com a lembrança do casamento, a visão da noiva feliz no altar, ou de outra cena, e precisamos de um objeto para nos lembrar daquele casamento?

Nós não precisamos do objeto. Mas aí, depois que recebemos, sentimo-nos culpados. Como vamos jogar fora uma coisa que compraram para mim e me deram? Mesmo quando não gostamos ou nos cansamos do objeto, pesa certa culpa. Se juntarmos todas as lembrancinhas de todos os eventos que participamos, vamos juntar muitas coisinhas, muitas tranqueiras.

E festa de criança? Está ficando surrealista o tamanho do pacote da famosa lembrancinha! Um pai querendo fazer mais do que outro pai para as crianças falarem: “Nossa! Que festa legal! Eu ganhei um saco gigante de bala, doce e brinquedo!”. Eu já vi lembranças do tamanho de caixa de cesta básica! Gente, para, PARA! Estamos desenvolvendo futuros consumidores, desenvolvendo pessoas que vão acumular coisas sem sentido. Nenhuma criança precisa sair de uma festa na qual se entupiu de doce e sair com um monte de doce da festa. Sem comentar os problemas com a alimentação!

Então, a lembrancinha pode ser repensada e não precisamos nos sentir culpados se não queremos. Lógico que se é uma peça bonita, interessante e bem feita, e se tiver espaço na suas casas para guardar, tudo bem. O problema está naquelas coisas que são realmente descartáveis e não conseguimos descartar mais.

http://infiniiteparticular.blogspot.com.br/

O que mais de trecos e coisinhas? Ah... Lembrança de passeios e viagens! Também temos isso. Tem pessoas que gostam de guardar o bilhete de entrada. Foi para o museu e guardou o bilhete de entrada; foi para o show, guardou o bilhete de entrada. Gente... O.K. É verdade, ele nos lembra! Vocês até podem estar fazendo um álbum de todos os shows que foram durante sua vida. Se for tão importante assim, deem o devido valor, mas não pare no meio do caminho que é simplesmente jogar na gaveta e ficar lá. Para que? Para talvez ter a surpresa agradável de falar “Já fui nesse show!”. Sinceramente, será que o show precisa de um bilhete para ser lembrado? Será que não ficou uma imagem no nosso subconsciente desta vivência? E se não ficou, não tem problema. Às vezes, queremos reter a vida; experiências com lembranças e estamos entupindo nossa memória sem muita necessidade. O cérebro tem recursos para gravar as principais lembranças. E o que não é tão importante vai ser esquecido e... TUDO BEM!

Conheci uma senhora de 87 anos que estava bem lúcida para a idade dela. Ela tinha um prazer muito grande de contar uma história. A história do primeiro beijo que recebeu do marido, numa festa da empresa, num pic-nic. Ela contava desse primeiro beijo. Contava várias vezes. Obviamente que essa história poderia ter sido um pouco transformada. Na verdade, nós não relembramos exatamente, vamos agregando e transformando a memória. Mas ela contava com muito prazer esta história do primeiro beijo que fora roubado naquele pic-nic. E olha que ela ficou casada por mais de cinquenta anos! Algumas pessoas da família dela se irritavam com aquela história, mas eu ficava encantada. Passava a questionar quais histórias estamos levando de nossa vida. Que histórias vão acalentar nossa alma, quando o fluxo da vida já não traz tantas histórias novas? O que carregamos para o nosso leito de morte? Espero que não seja um monte de lembrancinhas fúteis, cacarecos e coisinhas sem importância... Deixem as coisinhas sem importância irem, tomarem só o espaço que elas precisam e guardem de fato as coisas que são significativas.

Aproveitando que estamos no final de ano, gostaria de lembrar que essa é uma época de encontros, reencontros e memórias. Repensem se a única forma que marcam presença na vida de alguém é dando lembrancinhas e presentes!

Coloquem energia no encontro, no contato, nas experiências. Vivam os momentos, deixem marcas verdadeiras!
Deborah J. Williamson Passos
Psicóloga Clínica

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